Agora vai? Obra de duplicação do Anel Viário se arrasta há 15 anos e ganha novo prazo, na Grande Fortaleza
30/08/2025
(Foto: Reprodução) Obras de duplicação do Anel Viário continuam, 15 anos após início
Kid Júnior/SVM
Em junho de 2010, o então ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, veio a Fortaleza inaugurar a obra da ponte sobre o Rio Sabiaguaba. A ponte de 325 metros de extensão começou a ser construída em 2002 e foi concluída, após vários atrasos, oito anos depois. No dia da inauguração, Paulo Sérgio também assinou a ordem de serviço para uma obra que, 15 anos depois, ainda não ficou pronta: a duplicação do Anel Viário de Fortaleza.
O Quarto Anel Viário é uma pista de 32 quilômetros que circunda Fortaleza e conecta a capital cearense a outros municípios da Região Metropolitana. A via conecta sete rodovias, entre estaduais e federais – as CE-010, CE-040, CE-060, CE-065, BR-116, BR-020 e a BR-222 -, que se encontram em Fortaleza para unir o norte e o sul do Ceará. A duplicação começou em 2010 e era para ficar pronta em 2012, mas o novo prazo de conclusão é 2026.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp
🚜🚧A ideia da obra era recapear os 32 quilômetros de estrada já existentes do Anel Viário e construir, do lado esquerdo, uma nova pista de 32 quilômetros. Cada pista teria duas mãos, totalizando quatro faixas. A antiga continuaria a ser de asfalto, enquanto a nova seria de concreto. Também seria necessário construir um canteiro central, ciclofaixas, alças, retornos e acessos.
Do ponto de vista econômico, é uma via fundamental para o desenvolvimento econômico cearense. O projeto foi concebido para ser a ligação entre o Porto do Mucuripe, em Fortaleza, e o Porto do Pecém, em São Gonçalo do Amarante, que se tornou o principal ponto de escoamento das exportações cearenses.
A pista é o principal acesso para a Central de Abastecimento do Ceará (Ceasa) e os distritos industriais de Maracanaú, que reúnem mais de 500 empresas. Nos arredores, estão empresas de logística, indústrias pesadas e centros de distribuição de grupos como Amazon. No trecho que corta o Eusébio, condomínios de alto padrão, shoppings e escolas têm se instalado nas proximidades da via.
Quando foi anunciada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a duplicação do Anel Viário teria um custo de R$ 195 milhões. A expectativa inicial era concluir a obra em 20 meses, portanto, no mais tardar em 2012.
➡️ Hoje, 15 anos depois do início das obras, a duplicação do Anel Viário já está na casa dos R$ 257 milhões, e recebeu mais um aporte de R$ 97 milhões. De lá para cá, a obra saiu das mãos do DNIT (federal) e foi para o Governo do Ceará. Três consórcios já passaram pelo projeto sem concluir a obra e um quarto está tocando o empreendimento agora.
Frete rodoviário: a importância para o Brasil e o impacto nos preços
Atualmente, a pista está duplicada, mas a obra não está concluída. Em julho de 2024, o governador Elmano de Freitas (PT) anunciou a retomada das obras, que estavam paralisadas desde 2022. O aporte extra de R$ 97 milhões - a maior parte do governo federal - tem objetivo de concluir a duplicação.
As obras foram retomadas efetivamente em novembro de 2024 com a promessa de concluir no fim de 2025. O prazo, contudo, foi revisado agora para o primeiro semestre de 2026.
Vivendo ao lado
Moradores de bairros às margens da via convivem há anos com as obras interrompidas, o que, conforme pessoas com quem o g1 conversou, causa transtornos, dificulta os deslocamentos e põe em risco a vida dos motoristas e transeuntes.
O empreendedor e líder comunitário Policarpo Ribeiro vive desde 2008 em um residencial no bairro Nova Pacatuba, às margens do Anel Viário, e assistiu ao início das obras – bem como seu arrastar.
“A perspectiva era de melhoras, na verdade, porque a ideia é de aumentar [a pista]. Eu cheguei aqui, só existiam duas faixas, uma ida e outra volta, e nós pensávamos que com esta duplicação, o índice de acidentes iria diminuir", relatou. “Ficou uma [pista] nova e a outra ficou inacabada, sem sinalização e sem iluminação”.
Residencial Orgulho do Ceará fica nas margens do Anel Viário e moradores reclamam de problemas causados pelas obras
Kid Júnior/SVM
Representantes do setor industrial também lamentam os atrasos e alertam para os custos extras que eles causam às empresas instaladas no entorno do Anel Viário ou para o transporte de cargas, como diz o presidente da Associação Empresarial das Indústrias do Distrito Industrial (Aedi), André Siqueira.
“É muito tempo para se ter uma obra concluída, são muitos anos, foram vários governos. E o Anel Viário é o elo de conexão do Porto do Mucuripe com a BR-116, BR-222, BR-020, que são as principais rodovias do Estado, e do Porto do Pecém com a BR-116. Ou seja, tudo que chega em Fortaleza, no Ceará, para o Porto do Pecém, vindo do sul [do estado], tem que passar pelo Anel Viário, não tem hoje outra via. Então, o Anel Viário, ele é uma rodovia, um acesso de fundamental importância para a logística de cargas e de pessoas”, afirma.
O g1 visitou a obra na última segunda-feira (18) e constatou que, enquanto o trecho duplicado, feito de concreto, apresentava bom estado, a pista antiga, de asfalto, apresentava trechos com desnível, buracos e raspagens, que geralmente são feitas antes de um recapeamento. Confira na reportagem:
Uma necessidade logística
A pista original do Anel Viário começou a ser feita em 1981. A ideia era concentrar o tráfego de veículos pesados que iam para e saiam das regiões industriais de Fortaleza e da Região Metropolitana. A via vai do Eusébio à Caucaia, passando por Itaitinga, Pacatuba e Maracanaú.
A pista de 32 quilômetros, com duas faixas, feita de asfalto, foi concluída em 1987. Quase 30 anos depois, em setembro de 2008, diante do aumento do tráfego na região e o início das operações do Porto do Pecém, o DNIT anunciou que havia aprovado um projeto de duplicação do Anel Viário.
À época, a obra foi orçada em R$ 195 milhões, e seria executada com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A ideia era começar a obra em abril de 2009 e concluir em dezembro de 2010.
📍O trabalho, em resumo, é: recapear a pista original, de asfalto; construir a nova pista de 32 quilômetros ao lado, feita de concreto, ampliando de 2 para 4 faixas; abrir os retornos e alças que dão acesso aos bairros e empresas vizinhas, fazer como acostamento, sinalização, ciclofaixas, etc.
Obras de duplicação do 4º Anel Viário acontecem na área tracejada de amarelo
Louise Anna/SVM
Em março de 2010, foi assinado um contrato de R$ 188,9 milhões com o consórcio vencedor, o Queiroz-EIT, que seria responsável por executar a duplicação. Em abril, o DNIT assinou um contrato de R$ 6,4 milhões com a JBR Engenharia, que seria responsável pela supervisão técnica da obra. A previsão era concluir no fim de 2012.
Em junho de 2011, o consórcio vencedor já havia paralisado as obras. Foi negociado um reajuste e as obras foram retomadas. Em dezembro de 2011, o DNIT e o Governo do Ceará decidiram por uma nova dinâmica: o DNIT enviaria os recursos, e o governo estadual iria tocar a obra.
A mudança foi firmada por meio de um termo de compromisso. Quando ele foi assinado, isto é, 22 meses após a assinatura do contrato inicial, as obras haviam avançado apenas 3%. Apenas um viaduto havia sido concluído.
Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), o DNIT informou que o baixo percentual de execução das obras de duplicação do Anel Viário se devia à lentidão nos processos de desapropriação e remoção de obstáculos. Entre eles, as redes de água e esgoto, linhas de energia elétrica e gasodutos da Petrobras que ficam às margens da pista.
Após o novo acordo firmado pelo DNIT com o Governo do Ceará em dezembro de 2011, o órgão federal se comprometeu a repassar R$ 200 milhões à administração estadual para concluir as obras. A nova previsão de conclusão era 2015.
Milhares de veículos passam pelo Anel Viário diariamente, que conecta sete rodovias, entre estaduais e federais
Kid Júnior/SVM
Troca-troca de consórcio
Em janeiro de 2012, após assinatura do Termo do Compromisso, as obras do Anel Viário foram retomadas, desta vez sob tutela do Departamento Estadual de Rodovias (DER), mas ainda executadas pelo consórcio Galvão-EIT. Em novembro de 2013, o DER informou que estavam 25% concluídas.
Em dezembro de 2015, a nova data em que as obras deveriam ser concluídas, elas foram paralisadas devido à rescisão de contrato do consórcio Galvão-EIT, que rompeu litigiosamente com o governo estadual.
No mesmo ano, o TCU realizou uma fiscalização na obra para averiguar como o dinheiro federal, repassado pelo DNIT, estava sendo usado. A Corte descobriu que, em 2011, ano em que a Galvão-EIT começou, paralisou e retomou as obras após um reajuste, o valor do contrato havia ido de R$ 188 milhões para R$ 228 milhões, um aumento de 20%.
A mesma fiscalização revelou que as obras estavam em 61%, com a maior parte da pavimentação concluída, quatro viadutos construídos e algumas pontes. Outros serviços, como a construção de alças, canteiros, e os viadutos restantes, continuavam em ritmo lento.
Ao longo de 2016, as obras permaneceram praticamente paradas, e em março de 2017, o governo fez um processo de relicitação da obra, cujo consórcio vencedor foi o Torc-Via, composto pelas empresas Torc Terraplanagem Obras Rodoviárias e Via Engenharia S.A.
O novo contrato foi de R$ 86 milhões, com previsão de conclusão para o fim de 2019. As obras da nova empresa – o segundo consórcio a passar pelo empreendimento - só começaram no segundo semestre de 2017, e a passos lentos.
Em março de 2018, o Governo do Estado rescindiu o contrato com o consórcio Torc-Via por causa da lentidão. Àquela altura, quase um ano depois de ter sido selecionada na licitação, a Torc-Via tinha executado apenas 4% do contrato.
Obras de duplicação do Anel Viário já acontecem há 15 anos, com paralisações e troca de consórcios
Kid Júnior/SVM
O governo estadual reaproveitou a licitação da Torc-Via e em abril de 2018 convocou a segunda colocada, o consórcio Souza Reis/Jurema/Geosistema, o terceiro a passar pelo Anel Viário. As obras foram retomadas novamente, mantendo a previsão de conclusão para o segundo semestre de 2019.
Em fevereiro de 2019, os 32 quilômetros de pista duplicadas foram liberados para tráfego, ainda que todo o entorno estivesse incompleto: faltavam construir alguns viadutos, alças, nivelar o acostamento, construir o canteiro central e as ciclovias, entre outras atividades.
Fase final de obras
A liberação da segunda pista do Anel Viário em 2019 pareceu um bom sinal. No entanto, o que ocorreu no segundo semestre daquele ano foi o pedido de recuperação judicial da construtora Souza Reis, a principal empresa integrante do consórcio que tocava a obra. Com isso, os trabalhos foram paralisados pela terceira vez.
O ano de 2020, aniversário de 10 anos da obra, começou com o estudo da possibilidade de incluir uma quarta empresa no consórcio, o que permitiria a retomada da obra. A ideia foi concretizada em junho, quando o Grupo Cosampa entrou no consórcio, assumindo o lugar da Souza Reis como empresa majoritária, e retomou as obras.
Menos de 12 meses depois, em maio de 2021, a Cosampa também desistiu da obra e rescindiu o contrato. Uma nova licitação foi lançada em 2021 com resultado para janeiro de 2022, mas o certame foi deserto – nenhuma empresa se interessou em apresentar proposta.
Mais tarde, em junho de 2022, mais uma licitação fracassou por preços completamente discrepantes: uma empresa cobrou muito abaixo do valor, R$ 6,5 milhões, para terminar a obra; outra cobrou R$ 700 milhões, o triplo do valor estimado do Anel Viário. Nenhuma das duas foi selecionada.
Em julho de 2022, o governo federal, por meio do DNIT, transferiu para o Governo do Ceará a totalidade do Anel Viário - no acordo assinado em 2011, a via continuava sendo federal, e o estado assumia apenas a responsabilidade de concluir a duplicação, mas com o acordo de julho de 2022, o Anel Viário como um todo passou a ser do governo estadual.
Em março de 2023, o governador Elmano de Freitas conseguiu junto ao Ministério dos Transportes um novo aporte de R$ 80,5 milhões para terminar a obra, e se comprometeu a entrar com uma contrapartida de R$ 16,5 milhões, totalizando mais R$ 97 milhões para concluir o Anel Viário, para além dos R$ 257 milhões já repassados pelo DNIT.
Equipe do g1 encontrou equipes trabalhando em trechos do Anel Viário
Kid Júnior/SVM
A nova licitação foi lançada em abril de 2024 e o consórcio vencedor foi anunciado em maio, composto pelas empresas Laca Engenharia, Coesa Construções e Montagens, Dact Engenharia e Saed Engenharia.
A licitação foi homologada em julho de 2024, mas a ordem de serviço (quando efetivamente começam as obras) só foi dada no dia 8 de novembro de 2024. Portanto, o novo consórcio, o quarto envolvido na duplicação, está realizando obras há cerca de 9 meses.
O novo consórcio deve realizar os serviços remanescentes que faltam para concluir as obras do Anel Viário, como a restauração de pistas de acesso ao Anel Viário, pavimentação do acostamento e da ciclofaixa, a implantação dos retornos e a sinalização da via.
O governador Elmano de Freitas prometeu terminar a obra entre 12 e 15 meses, prazo que encerra entre o fim de 2025 e o início de 2026. Em conversa com o g1 no início de 2025, Ilo Santiago, o superintendente de rodovias da Superintendência de Obras Públicas do Ceará (SOP), novo órgão responsável por fiscalizar obra, afirmou que acredita no prazo de conclusão previsto.
“A gente sabe que esses remanescentes são difíceis de ser executados, porque ninguém pode tirar os carros de cima da rodovia, certo? Ninguém pode tirar. Vamos executar isso com os carros em cima. Isso é uma dificuldade muito grande. Tem que sinalizar bem sinalizado. Nós temos que ter muito cuidado para evitar problemas de acidente e fatalidades, tanto com danos materiais como de vida. Tem que ser feito com muito cuidado. E aí, o consórcio está bem à par disso", afirmou Ilo.
Visita ao Anel Viário
Na tarde da última segunda-feira (18), a reportagem percorreu toda a extensão do Anel Viário para verificar o andamento das obras. A equipe encontrou pelo menos nove áreas em obras, voltadas sobretudo para a construção de retornos e acostamento. Só haviam equipes trabalhando em algumas delas.
Ao longo da via, na pista antiga (a de asfalto, construída em 1987), a equipe encontrou alguns trechos raspados – procedimento feito antes do recapeamento – e alguns trechos esburacados, estes últimos concentrados nas proximidades da Ceasa e do Distrito Industrial, áreas com intenso tráfego de caminhões.
Trecho do Anel Viário com pista desgastada, nas proximidades da Ceasa, em Maracanaú
Kid Júnior/SVM
Justamente próximo ao Distrito Industrial está a maior intervenção do momento, que inclui obras no canteiro central que separa as duas pistas (a nova e a velha) e fechou uma das duas mãos da pista antiga.
Por causa do fechamento, este trecho da via, que vai no sentido Eusébio-Caucaia, registrava um longo engarrafamento, com alguns veículos trafegando irregularmente pelo acostamento para escapar da lentidão.
Mais à frente, já no bairro Urucutuba, em Caucaia,a reportagem encontrou outro longo trecho com a pista raspada e esburacada, o que gerava uma onda de poeira na região. Contudo, não havia congestionamento neste trecho.
Em nota, a Superintendência de Obras Públicas do Ceará (SOP) informou que 130 pessoas estão trabalhando diariamente na conclusão do Anel Viário de Fortaleza, sobretudo na implantação de retornos e nos serviços de fresagem e recapeamento.
"Com a conclusão dos desvios e ajustes nas tubulações da rede de gás que cobre a região, que dependiam de autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), e com o fim do período de chuvas, a obra do Anel Viário de Fortaleza teve seu ritmo retomado. A previsão de entrega é para o fim do primeiro semestre de 2026", afirmou o órgão.
Bairros próximos sofrem com obras
Diversos bairros da capital cearense e de cidades da Região Metropolitana margeiam o Anel Viário. É o caso do Ancuri e de Pedras, em Fortaleza; do Jari e da Pajuçara, em Maracanaú; do Nova Metrópole e do Urucutuba; em Caucaia; e o do Nova Pacatuba, em Pacatuba.
Nestes pontos, as reclamações são semelhantes: obras intermináveis, poeira, barulho, engarrafamentos, dificuldade de locomoção e, sobretudo, perigo no trânsito.
“Você pode ver, não tem como as pessoas que moram do lado de cá ou do lado de lá fazer aquele retorno com segurança. É totalmente inseguro por conta do movimento dos carros. E a população pede socorro”, lamenta a dona de casa Marta Freitas, que mora no bairro Jari, às margens do Anel Viário, em Maracanaú.
Trecho em obras do Anel Viário, no município de Caucaia, em 2025
Kid Júnior/SVM
De fato, o Anel Viário registra acidentes frequentemente, muitos fatais. O último, inclusive, ocorreu no dia 5 de agosto, depois que um motociclista perdeu o controle da moto, caiu e foi atropelado. No início de julho, uma série de acidentes ocorreram no Anel Viário, sobretudo com motociclistas, por causa de um trecho da pista que tinha um desnível de um palmo em relação ao acostamento.
O líder comunitário Policarpo Ribeiro, que mora no bairro Nova Pacatuba, também reclama das obras atrasadas, da falta de retornos da pista, da falta de iluminação e de sinalização, sobretudo no trecho entre a Ceasa (Maracanaú) e a BR-116 (Fortaleza).
“Eles pegam, raspam o asfalto que está bom e deixam sem sinalização vertical nem horizontal. Fica lá ao léu, criam-se crateras absurdas e os transeuntes, os motoristas que não conhecem o trecho, uma escuridão absurda, acabam se deparando com uma cratera bem à sua frente. Não dá tempo de frear. Quando freia, por ser uma via expressa, o carro que vem atrás, ele não dá tempo de brecar, frear, também acaba ocasionando uma colisão e isso tem gerado, meu amigo, a perda de dezenas de vidas nesses trechos”, afirma.
O residencial onde vive, o Orgulho do Ceará, foi construído nas primeiras levas do programa Minha Casa, Minha Vida. Centenas de famílias vivem no local e reclamam dos problemas de locomoção para chegar até mesmo ao bairro vizinho, a Pajuçara, sem falar nos engarrafamentos constantes.
“Todos os dias, todos os dias é congestionamento quilométrico. Sabe por que? Por causa de três, quatro buracos que tem lá na frente. [...] Então assim, qualquer acidentezinho, qualquer situação, meu amigo...”, conta.
Empresas lamentam demora
Em 1966, foi criado o Distrito Industrial do Maracanaú, um local próximo a Fortaleza, mas relativamente pouco urbanizado, onde se poderiam instalar infraestruturas para receber indústrias pesadas. Uma das principais vias de acesso ao Distrito Industrial é o Anel Viário.
O presidente da Associação Empresarial das Indústrias do Distrito Industrial (Aedi), André Siqueira, conta que é usuário diário do Anel Viário. Ele mora na cidade de Eusébio e sua indústria fica no Maracanaú.
“Você imagina o que todo o tempo vale dinheiro. Então, você imagina que você contrata um frete e ele vai passar ali uma hora parado, você vai sair da sua casa para o seu trabalho, você vai perder ali tantos minutos no engarrafamento. Então, qualquer tipo de barreira que impeça o fluxo de pessoas e de mercadorias só traz prejuízo", aponta.
Ele também alerta que um dos principais gargalos da via não foi resolvido na obra de duplicação: o viaduto que passa por cima da BR-116. Neste trecho, o Anel Viário, que tem 4 faixas (2 em cada pista), afunila e fica com apenas duas faixas, gerando engarrafamentos diários.
“Não tem nenhuma obra hoje de duplicação desse viaduto. Então esse é um ponto importantíssimo a ser destacado, porque muito embora se conclua o Anel Viário, o viaduto vai continuar engarrafando, porque é um funil, os carros vêm ali em duas vias, em velocidade X, chega num ponto que afunila para uma via, numa velocidade inferior, então você causa naturalmente um engarrafamento”, alerta.
Anel Viário tem tráfego intenso de caminhões, com diversas indústrias, centros de distribuição e empresas de logística nas proximidades
Kid Júnior/SVM
O cenário de atraso nas obras e engarrafamentos preocupa especialmente as empresas do setor de transporte de transporte de carga. Nas palavras do presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística do Ceará (Setcarce), Marcelo Maranhão, a obra é “extremamente necessária”.
“O Anel Viário, o quarto Anel Viário, ele é fundamental para o transporte rodoviário de carga principalmente porque faz a ligação de todo o acesso da região Norte do Estado, da BR-222, com a região Sul, por intermédio da BR-116, certo? Além de fazer a ligação dos dois portos, Mucuripe e Pecém”, detalha.
Ele chama atenção para o movimento das últimas décadas de transferência de grandes estruturas industriais para cidades vizinhas a Fortaleza, na região metropolitana, de modo a desafogar o território da capital cearense.
O movimento foi feito tendo em vista a proximidade com Fortaleza, no entanto, o aumento da atividade econômica e do fluxo de veículos tornou longa uma viagem que não é distante.
"Hoje, por conta desse estrangulamento da não conclusão das obras do Anel Viário, eu tenho uma perca de produtividade em torno de 50%. Hoje, só para exemplificar, uma empresa que esteja sediada no Distrito Industrial do Maracanaú [...], ela perde algo em torno de 50% da sua capacidade de transporte. Aonde ele poderia dar 3, 4 viagens por dia para fazer essa distribuição, eles conseguem fazer duas, no máximo, três viagens”, exemplifica.
A dificuldade de locomoção e a demora no transporte de cargas, conforme o Setcarce, tem dois grandes impactos:
Aumento da frota: como um veículo demora mais para fazer uma entrega devido às condições da via, são necessários mais veículos para realizar o mesmo número de entregas, o que significa mais veículos circulando, maior tráfego e mais gastos com transporte
Aumento do custo: por causa do aumento da frota e da também da menor produtividade, o custo das entregas aumenta, o que causa um aumento estimado entre 10 e 20% no valor do frete
“Então, com essa conclusão, no que diz respeito à região metropolitana, nós teríamos um ganho de produtividade, ganho significativo no que diz respeito à segurança, que esse é imensurável, e um ganho no custo da distribuição, tanto para as distribuidoras, como para as transportadoras, como para os lojistas de Fortaleza, que teriam melhor condição de receber seus produtos”, afirma.
Assista aos vídeos mais vistos do Ceará